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Diário do Bunker - Dia Um

Sobrevivente: Severino Batista escreveu em 16/12/2012

Hoje está um dia confuso, 12h com sol a pino, e acabo de acordar em meio a um caos silencioso e solitário.

Meu nome é Severino, estou trancado em meu apartamento no térreo, na Avenida Conde da Boa-Vista, Recife - PE, começo a escrever tudo que se passar comigo, para o caso de que eu morra, saibam algo sobre mim. Estou diante da minha janela, no térreo, observando a rua por uma fresta na persiana, o silêncio perturbador, quebrado apenas por um alarme intermitente de carro, ecoando na avenida mais movimentada da minha cidade, que hoje está vazia, minha cabeça dói, por conta da garrafa de vodka barata que eu entornei ontem, para tentar esquecer o que parecia ser um pesadelo, mas que agora vejo ser verdade.

Meu amigo Nando e sua esposa Júlia, estavam mortos, ela morreu diante de meus olhos, e depois me atacou.

Isso mesmo, ela me atacou depois de ter morrido bem na minha frente, o que eu entendi como o contágio da grave doença que eu vi sendo anunciada na televisão, que é incurável e fatal. Hoje, temo que a cidade tenha sido evacuada e eu tenha ficado para trás, carros abandonados aos montes na rua, com portas abertas e com pertences pessoais ainda em seus interiores, sapatos sem os pares espalhados pelas calçadas e um silêncio aterrador.

Eu já vi muitos filmes deste tipo, sei mais ou menos o que está acontecendo, porém ainda não consigo acreditar, sempre achei que o maior perigo no Brasil, eram os socialistas corruptos, mas eu estava enganado, quando menos se espera, a merda bate no seu ventilador e se espalha por toda sua cara.

Eu tinha estocado em casa, muito alimento em garrafas pet, como vi em um vídeo na internet, que prometia ampliar o prazo de validade em anos, e água, e suprimentos de longa duração de toda espécie, com medo da crise financeira, ao estilo bolivariano, que prometia atingir terras de santa-cruz, ao menos, não morrerei de fome, enquanto penso no que fazer.

Ainda estou tremendo e com dor de cabeça, mas a curiosidade fala mais alto, vou vasculhar o prédio, pra ver se algum de meus vizinhos ficaram e estão bem, e cuidar da entrada no prédio, para que nenhum saqueador entre.  Acho que este é o lado bom de não ter família, ou esposa, não tem ninguém por quem ficar desesperado, numa situação ruim, ninguém desesperado por mim também...

Subindo as escadas, logo percebo portas escancaradas, e um rastro de desespero, do interior pra fora, de cada um dos apartamentos e escritórios comerciais, no segundo andar, a mesma coisa, exceto por uma porta, que está fechada, eu bato, é a porta de Beatrice, uma mulher que trabalha, ou melhor, trabalhava numa loja de sapatos aqui perto, insisto em bater, “dona Bia!? sou eu, Severino, a senhora está bem ?”

Após alguns segundos de um silêncio desolador, eu giro a maçaneta, que está trancada, tentei novamente, avisar que era eu, e que estava entrando, então forcei a porta, e entrei, na sala, não havia nada, a TV estava ligada, mas nenhum canal estava funcionando, após eu mexer no controle algumas vezes a
TV desligou, as lâmpadas também, olhei para o lado de fora, e os semáforos que antes piscavam loucamente, como em uma árvore de natal começaram a apagar, e logo nenhuma energia fluía pelos fios da cidade, eu pensei; “Agora sim, ta uma merda”. Quando me virei, dona Bia estava diante de mim, no mesmo estado lastimável que Júlia, antes de morrer pela primeira vez, ela esboçou um olhar desesperado, com os olhos virando, e forçando a garganta para tentar falar, ao chegar muito perto de mim, ao passo que eu recuava, ela segurou a própria garganta, sufocando em secreção, e caiu ao chão, em uma morte tão chocante quanto a da esposa do meu melhor amigo.

Eu olhei pra trás ao sentir minhas pernas encostar-se a algo, me virei e vi que Beatrice tinha me feito recuar, desavisado, ate a beira da janela do segundo andar.

Após o susto, olhei perplexo e assustado pra a expressão horrível do rosto de minha vizinha, eu já sabia o que viria depois, amarrei as pernas e os braços dela, e fui observar se dentro da casa havia mais alguém, já que Dona Bia morava sozinha, assim como eu, e alguém teria feito quilo com ela, e a menos de Duas horas...

Vasculhando a casa, não encontrei ninguém, mas achei enlatados que ela com certeza não vai mais precisar.

Ao sair tranquei a casa por fora, ainda com o corpo da vizinha dentro, e vasculhei sem problemas o resto do prédio, ao tentar acessar a cobertura, a encontrei trancada com correntes pesadas, e resolvi adiar esta parte, pois estava ficando tarde.

Fui pro meu apartamento, com comida enlatada e coisas das casas dos vizinhos.

Fiz comida no escuro, iluminado apenas por uma vela comum, me alimentei e fui para cama, para mais uma noite longa e complicada, pensando no horror e sentindo uma solidão ainda maior que a que eu sentia antes...

Fim do dia um.     

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Diário do Bunker - Dia Dois

Sobrevivente: Severino Batista escreveu em 17/12/2012

Após outra noite mal – dormida, tendo pesadelos horríveis com as coisas que eu vi nos dias anteriores, terminei por acordar cedo demais, são só 5 da manhã, e estou com um mal-estar, meu estômago está embrulhado, e minhas mãos tremendo como se estivesse sentindo muito frio, eu olho a janela, pela persiana, e está tudo igual, exceto pelo alarme de carro, que cessou.


Finalmente aquela bateria maldita descarregou, e o som infernal e repetitivo, acabou, e poderei dormir melhor, meu maior medo agora, por incrível que pareça, é dos possíveis sobreviventes, e isto é estranho, nunca me imaginei tão confortável sabendo que  rua está vazia, enquanto preparo um desjejum, penso sobre este sentimento estranho, de estar me sentindo bem, sabendo que não há ninguém lá fora, talvez eu tenha desejado estar sozinho, ou sonhado com estas ruas vazias, e agora, de forma pitoresca e sádica, este sonho inconsciente se realizou, e não estou chocado...


É a mesma sensação de conforto, que eu sentia quando criança, ao ficar observando o quadro na sala de uma casinha humilde, que ilustrava um homem sozinho, caminhando por uma longa estrada no sertão, a expressão tranquila daquele homem, fazia parecer que sua solidão o fazia feliz.


Meus pais eram retirantes, do sertão de Pernambuco, meu avó, era padre, e teria dado abrigo a Lampião e seu bando, dada esta história, meu pai me dera o nome de Severino, que era o nome do cangaceiro, meu pai disse que eu seria valente e forte, assim como Lampião. Não me enxergo assim agora, estou apavorado, não com esta doença, que mais parece coisa de filme, mas com medo dos que possivelmente teriam sobrevivido.

Eu não queria ser encontrado, pois crises menores já tomaram conta da cidade antes, lembro-me de um episódio recente, em que a policia entrou em greve, e o caos tomou as ruas, saqueadores, estupros, assaltos e todo tipo de crime, tomou as ruas, esta é uma cidade violenta, e do mesmo modo, eu me tranquei em casa, como estou fazendo agora. Meu medo é dos vivos.

Ao terminar meu café da manhã, cobri as janelas com jornal, para que ninguém (ou nada) de fora, me visse do lado de dentro, e subi com uma serra, para a cobertura do meu prédio, cortei com certo esforço a corrente, e do alto, pude ver a real situação, meu bairro, no centro da cidade de Recife, é cortado por vários rios, e suas pontes seculares foram derrubadas, eu estava ilhado. Muitos pontos da cidade estavam em chamas, torres negras de fumaça se erguiam até o horizonte, em diversos pontos, em todas as direções, e ninguém, nenhum carro ou moto, nenhuma alma viva à vista... Nunca imaginei uma cena daquelas, não fora de um filme hollywoodiano.

Paralisado diante do caos, me sentei e observei o inexorável em todo o horizonte, até recobrar mais uma vez meus sentidos, quase nunca ficava perplexo ou impressionado com coisa alguma, e já era a terceira vez em dois dias, eu desci e comecei a organizar minhas coisas, afinal, minha casa é no térreo, e bem de frente para a rua, fui para a cobertura, lá seria mais difícil de um pedestre me avistar, e mais fácil de um helicóptero ou outra coisa me resgatar, tenho comida para meses, ainda não é tempo para desespero.

Ao anoitecer, ascendi uma fogueira no topo do edifício, ela não chamará a atenção, um vez que incêndios são comuns na paisagem, e aproveito para observar as ruas da beirada, e algo me chama a atenção, um dos carros dispara outro alarme, observando e procurando pelo carro, vejo, que de dentro dos outros. Prédios começam a sair pessoas, em direção ao tal carro, de todas as direções, eu corri para casa, para pegar meu binóculo, que usava no trabalho, para observar melhor o ocorrido, chego novamente ofegante a cobertura, e olho, um homem com uma jovem sob o teto de um carro, e as pessoas tentando os derrubar, ao usar o binóculo, vejo não se tratar de saqueadores, mas sim de pessoas contaminadas pela doença que matou meu amigo, sua esposa e minha vizinha, apavorado, eu saí do parapeito e sentei de costas, respirando fundo, tentando ignorar os gritos da garota, fechei meus olhos fortemente, mas não me conti, desci as escadas correndo, e peguei a arma que Julia usava, no dia que morreu, e saí até a rua, meu pânico era tão grande, que meus ouvidos começaram a zunir, e eu não conseguia ouvir nada além da minha respiração ofegante, eu corri desnorteado de tanto medo, em direção ao perigo, de modo, que parecia que eu não estava ali, fazendo aquilo, olhei para as minhas pernas em movimento, mas parecia que não eram minhas, então, mais ou menos a 25 metros do carro, eu mirei contra a multidão de infectados, fechei os olhos e puxei o gatilho.


Bah!! Bah!! Bah!!


Os flashes dos disparos iluminaram a avenida, por uma fração de segundos a cada disparo, pude ver a luz, mesmo com as pálpebras fechadas, acho que devido a meu pânico, não acertei nenhum inimigo, mas atraí para mim, a atenção da horda trôpega que atacava o casal.


Meu coração acelerou, e meu corpo inteiro começou a gelar a partir da espinha, assim que todos aqueles rostos sinistros se voltaram contra mim, à arma tremendo em meu punho, eu observei o rosto da jovem, uma ruiva de olhos verdes e profundos, que olhou para mim, como quem olha um vaso prestes a se quebrar, esse contato visual durou apenas até o homem que estava com ela, aproveitar a distração que eu criei, puxando-a pelo braço do topo do carro ensurdecedor, depois disso eu quis correr, mas minhas pernas travaram, eu caí para trás, e vi mais uma vez a garota sendo puxada e olhando para mim, por entre as pernas dos contaminados.

E este era eu, Severino, caído no meio do asfalto e quase borrado de medo, diante de uma mulher, que olhou com os olhos de quem olha um condenado. Lembrei-me do homem no quadro, sozinho numa estrada caminhando, pelo chão rachado do sertão, rumo um destino incerto, assim como meus pais antes de mim.
Meu devaneio só durou, até eu estar cercado por dezenas de infectados, que tentavam me agarrar, enquanto eu me arrastava, se eu parasse, mesmo que para atirar, eles me segurariam pelos pés, e seria meu fim, me arrastei por entre as pernas de alguns até entrar debaixo de um caminhão, de onde eu acessei a cabine pelo outro lado, e me tranquei dentro, o caminhão ficou cercado por tantos, que eu não quis ver, e me encolhi no piso, do lado do passageiro, eu estava tão aterrorizado, que dormi, mesmo com os gemidos infernais dos infectados e com suas batidas na lataria do caminhão, desta vez, o som mais perturbador da minha vida, não era o alarme incessante do carro lá fora, que já estava abafado pelo bater persistente e frenético dos infectados, mas sim o som da minha mente, que gritava de horror.

Este foi o dia dois.            

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Diário do Bunker: Dia três

Sobrevivente: Severino Batista escreveu em 19/12/2012

Acordei dentro da cabina do caminhão, com o som do vidro do lado do motorista sendo quebrado, pela cabeça de um dos infectados, o caminhão era alto, mas as horas que eu passei dormindo, foram o bastante para amontoar corpos até que me alcançassem, não era parte do pesadelo, o som da cabeça batendo até penetrar a vidraça, meu medo de disparar novamente, pareceu irrelevante, uma vez, que todos os infectados próximos já estavam ao redor do meu refúgio, então eu mirei bem no meio dos olhos dele e atirei, as tripas de sua cabeça tingiram parede do outro lado, e começaram a escorrer sob o banco do motorista, o corpo obstruiu a passagem de novos invasores, e me deu tempo pra raciocinar, eu observei, e atrás do banco tinha uma caixa metálica de ferramentas, eu abri e tinha um pé de cabra e uma grande chave inglesa, eu usei o pé de cabra pra forçar o painel do caminhão, pra tentar fazer uma ligação direta, ligando os fios que fazem ignição quando se gira a chave para dar partida, mas fui surpreendido por outro infectado, que começou a bater a cabeça do lado do passageiro, outros dois estavam se esticando pra subir ao capô, eu conseguí fazer ignição, passei a marcha e pisei no acelerador, atropelei os que estavam a frente, e derrubei o que estava na janela do passageiro, olhei e vi que o caminhão tinha uma tampa para ventilação no teto, eu a forcei e saí pelo teto, alguns continuaram escalando o capô, eu os empurrei e chutei os rostos com o pé, e rapidamente subi no baú do caminhão, que estava próximo de uma janela de um primeiro andar.
Joguei o pé de cabra pelo vidro, e depois a chave inglesa, terminando de quebrar-lo, e
não tive dúvidas, saltei os dois metros de um vão entre o caminhão e a janela, e caí dentro da casa de alguém, ao me recuperar da dolorosa queda,pude ver os errantes caindo do caminhão em um esforço inútil de me seguir, empurrei mobília contra a janela.  Com o joelho machucado fui mancando de arma em punhos, vasculhando a casa, que estava vazia, achei no banheiro alguns medicamentos, analgésicos e antibióticos, nos guarda-roupas, tinham mais remédios, dessa vez eram coisas de primeiros socorros, que eu já os tinha, mas que nunca é demais, peguei uma mochila que estava pendurada, e guardei tudo de útil, inclusive comida enlatada e instantânea que havia na cozinha, havia um facão perto da cama, que também peguei, e saí espreitando até o térreo, mas estava trancado, tive que arrombar com o pé de cabras, o que fez muito barulho, então eu corri pela rua, e acho que despistei os infectados que me seguiam, até chegar em casa, no trajeto forcei o joelho que ficou ainda mais dolorido, o que me fez valorizar cada centavo gasto num bom aerossol muscular, que me deu alívio quase instantâneo.
Anoiteceu, e eu estou cansado, amanhã eu continuo com o diário, e com a mudança pro topo do prédio.      
 
 

Fim do dia 3

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