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Diário do Bunker - Dia Dois

Sobrevivente: Severino Batista escreveu em 17/12/2012

Após outra noite mal – dormida, tendo pesadelos horríveis com as coisas que eu vi nos dias anteriores, terminei por acordar cedo demais, são só 5 da manhã, e estou com um mal-estar, meu estômago está embrulhado, e minhas mãos tremendo como se estivesse sentindo muito frio, eu olho a janela, pela persiana, e está tudo igual, exceto pelo alarme de carro, que cessou.


Finalmente aquela bateria maldita descarregou, e o som infernal e repetitivo, acabou, e poderei dormir melhor, meu maior medo agora, por incrível que pareça, é dos possíveis sobreviventes, e isto é estranho, nunca me imaginei tão confortável sabendo que  rua está vazia, enquanto preparo um desjejum, penso sobre este sentimento estranho, de estar me sentindo bem, sabendo que não há ninguém lá fora, talvez eu tenha desejado estar sozinho, ou sonhado com estas ruas vazias, e agora, de forma pitoresca e sádica, este sonho inconsciente se realizou, e não estou chocado...


É a mesma sensação de conforto, que eu sentia quando criança, ao ficar observando o quadro na sala de uma casinha humilde, que ilustrava um homem sozinho, caminhando por uma longa estrada no sertão, a expressão tranquila daquele homem, fazia parecer que sua solidão o fazia feliz.


Meus pais eram retirantes, do sertão de Pernambuco, meu avó, era padre, e teria dado abrigo a Lampião e seu bando, dada esta história, meu pai me dera o nome de Severino, que era o nome do cangaceiro, meu pai disse que eu seria valente e forte, assim como Lampião. Não me enxergo assim agora, estou apavorado, não com esta doença, que mais parece coisa de filme, mas com medo dos que possivelmente teriam sobrevivido.

Eu não queria ser encontrado, pois crises menores já tomaram conta da cidade antes, lembro-me de um episódio recente, em que a policia entrou em greve, e o caos tomou as ruas, saqueadores, estupros, assaltos e todo tipo de crime, tomou as ruas, esta é uma cidade violenta, e do mesmo modo, eu me tranquei em casa, como estou fazendo agora. Meu medo é dos vivos.

Ao terminar meu café da manhã, cobri as janelas com jornal, para que ninguém (ou nada) de fora, me visse do lado de dentro, e subi com uma serra, para a cobertura do meu prédio, cortei com certo esforço a corrente, e do alto, pude ver a real situação, meu bairro, no centro da cidade de Recife, é cortado por vários rios, e suas pontes seculares foram derrubadas, eu estava ilhado. Muitos pontos da cidade estavam em chamas, torres negras de fumaça se erguiam até o horizonte, em diversos pontos, em todas as direções, e ninguém, nenhum carro ou moto, nenhuma alma viva à vista... Nunca imaginei uma cena daquelas, não fora de um filme hollywoodiano.

Paralisado diante do caos, me sentei e observei o inexorável em todo o horizonte, até recobrar mais uma vez meus sentidos, quase nunca ficava perplexo ou impressionado com coisa alguma, e já era a terceira vez em dois dias, eu desci e comecei a organizar minhas coisas, afinal, minha casa é no térreo, e bem de frente para a rua, fui para a cobertura, lá seria mais difícil de um pedestre me avistar, e mais fácil de um helicóptero ou outra coisa me resgatar, tenho comida para meses, ainda não é tempo para desespero.

Ao anoitecer, ascendi uma fogueira no topo do edifício, ela não chamará a atenção, um vez que incêndios são comuns na paisagem, e aproveito para observar as ruas da beirada, e algo me chama a atenção, um dos carros dispara outro alarme, observando e procurando pelo carro, vejo, que de dentro dos outros. Prédios começam a sair pessoas, em direção ao tal carro, de todas as direções, eu corri para casa, para pegar meu binóculo, que usava no trabalho, para observar melhor o ocorrido, chego novamente ofegante a cobertura, e olho, um homem com uma jovem sob o teto de um carro, e as pessoas tentando os derrubar, ao usar o binóculo, vejo não se tratar de saqueadores, mas sim de pessoas contaminadas pela doença que matou meu amigo, sua esposa e minha vizinha, apavorado, eu saí do parapeito e sentei de costas, respirando fundo, tentando ignorar os gritos da garota, fechei meus olhos fortemente, mas não me conti, desci as escadas correndo, e peguei a arma que Julia usava, no dia que morreu, e saí até a rua, meu pânico era tão grande, que meus ouvidos começaram a zunir, e eu não conseguia ouvir nada além da minha respiração ofegante, eu corri desnorteado de tanto medo, em direção ao perigo, de modo, que parecia que eu não estava ali, fazendo aquilo, olhei para as minhas pernas em movimento, mas parecia que não eram minhas, então, mais ou menos a 25 metros do carro, eu mirei contra a multidão de infectados, fechei os olhos e puxei o gatilho.


Bah!! Bah!! Bah!!


Os flashes dos disparos iluminaram a avenida, por uma fração de segundos a cada disparo, pude ver a luz, mesmo com as pálpebras fechadas, acho que devido a meu pânico, não acertei nenhum inimigo, mas atraí para mim, a atenção da horda trôpega que atacava o casal.


Meu coração acelerou, e meu corpo inteiro começou a gelar a partir da espinha, assim que todos aqueles rostos sinistros se voltaram contra mim, à arma tremendo em meu punho, eu observei o rosto da jovem, uma ruiva de olhos verdes e profundos, que olhou para mim, como quem olha um vaso prestes a se quebrar, esse contato visual durou apenas até o homem que estava com ela, aproveitar a distração que eu criei, puxando-a pelo braço do topo do carro ensurdecedor, depois disso eu quis correr, mas minhas pernas travaram, eu caí para trás, e vi mais uma vez a garota sendo puxada e olhando para mim, por entre as pernas dos contaminados.

E este era eu, Severino, caído no meio do asfalto e quase borrado de medo, diante de uma mulher, que olhou com os olhos de quem olha um condenado. Lembrei-me do homem no quadro, sozinho numa estrada caminhando, pelo chão rachado do sertão, rumo um destino incerto, assim como meus pais antes de mim.
Meu devaneio só durou, até eu estar cercado por dezenas de infectados, que tentavam me agarrar, enquanto eu me arrastava, se eu parasse, mesmo que para atirar, eles me segurariam pelos pés, e seria meu fim, me arrastei por entre as pernas de alguns até entrar debaixo de um caminhão, de onde eu acessei a cabine pelo outro lado, e me tranquei dentro, o caminhão ficou cercado por tantos, que eu não quis ver, e me encolhi no piso, do lado do passageiro, eu estava tão aterrorizado, que dormi, mesmo com os gemidos infernais dos infectados e com suas batidas na lataria do caminhão, desta vez, o som mais perturbador da minha vida, não era o alarme incessante do carro lá fora, que já estava abafado pelo bater persistente e frenético dos infectados, mas sim o som da minha mente, que gritava de horror.

Este foi o dia dois.            


Colaborador Perdido

Infelizmente o colaborador Deadshot foi pego por uma horda e seus trabalhos vão ser descontinuados!


Diários Finalizados


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